ABORDAGEM SISTÊMICA DA MEDITAÇÃO

Meditação é a denominação ocidental dada aos sistemas e técnicas de treinamento mental que, enfim, foram assim denominados, pois não existia nenhuma palavra nas línguas ocidentais para descrever esse tipo de treinamento.

A palavra meditação nas línguas ocidentais modernas, por outro lado, representa algo como pensar profundamente sobre uma determinada questão, o que de forma alguma representa a definição do que é a técnica de meditação. Talvez por esse motivo, e talvez por erro de instrutores orientais dos primeiros tempos, meditação também ganhou o significado de “não pensar em nada”, que é outra definição equivocada.

A meditação é em sua essência um treinamento que desenvolve uma reestruturação mental, induzindo adaptações fisiológicas e anatômicas positivas no cérebro, com o fortalecimento de vários aspectos cognitivos, emocionais e perceptivos, além de impactar positivamente na saúde corporal, evitando, minorando ou eliminando algumas doenças ou estados patológicos.

O estudo teórico da meditação é muito útil para motivar e embasar a sua prática, mas como dito, é um treinamento baseado em exercícios e não uma aprendizagem teórica. Dessa forma, pode ser comparado a outros sistemas de treinamento, o que facilita em muito seu entendimento.

Atualmente existem dois corpos teóricos bem desenvolvidos de como a meditação funciona e como pode ser empregada, um tradicional baseado no conhecimento acumulado por gerações de mestre e praticantes que remonta milênios e outro moderno, baseado em estudos científicos.

A abordagem sistêmica da meditação envolve, entre outros elementos, o uso da linguagem moderna empregada em outros métodos de treinamento como uma forma mais adequada para o esclarecimento da natureza da meditação e de seus diversos aspectos.

O uso de linguajar místico ou religioso para se referir à meditação, apesar de ter toda uma justificativa histórica milenar, atualmente apenas obscurece os aspectos desse treinamento mental tão rico, prejudicando sua compreensão imediata.

 

Monge Dr. Luiz

MEDITAÇÃO E MINDFULNESS

 

MEDITAÇÃO E MINDFULNESS

Nesse artigo vamos analisar a relação entre o que se entende convencionalmente como meditação e como mindfulness e métodos derivados.

Entre as técnicas existentes de meditação, destacam-se técnicas que se chamavam “satipatthana” em páli, ou similarmente “shikantaza” em japonês, e que podem ser traduzidas para o português como “plena atenção” ou em inglês como “mindfulness”.

Os treinamentos atualmente conhecidos como mindfulness e suas derivações posteriores são adaptações do treinamento meditativo tradicional, com ênfase especial no treinamento de plena atenção, iniciadas no final da década de 70 do século passado.

Mantiveram o nome original das técnicas tradicionais, em uma prova de honestidade intelectual, e serão aqui tratados pelo termo já bastante difundido de mindfulness, tendo sido inicialmente desenvolvidos para pacientes clínicos com dores de origens físicas. Consiste em exercícios meditativos de baixa intensidade e com várias simplificações nos procedimentos tradicionais.

O que é o mindfulness?

O mindfulness e os métodos tradicionais de meditação tem sido comparados e considerados como totalmente distintos, sendo os métodos tradicionais considerados como velhos, possivelmente antiquados e difíceis, e colocados em contraste com ele, o mindfulness, como moderno, diferente e fácil de ser executado, enfim, inovador. Mas a abordagem sistêmica da meditação reconhece que ambos os métodos são apenas variações de intensidade e objetivos de um mesmo sistema mais abrangente.

Para melhor compreensão desse contexto, vamos tratar inicialmente de conceitos de atividades físicas: Um ciclista que quer fazer passeios eventuais no final de semana ou ir à padaria de vez em quando, pode comprar uma bicicleta barata, pesada e com tecnologia simples. Suas roupas para “pedalar” podem ser até mesmo as roupas diárias, ou alguma roupa esportiva simples. Ainda assim o ciclista vai adquirir algum condicionamento físico ao longo do tempo, mas mantendo-se essa rotina não resultará em grande evolução física. Por outro lado, um ciclista que quer competir vai precisar de uma bicicleta bem mais cara, com tecnologia avançada e leve. Suas roupas serão planejadas para fazer frente ao clima, ao esforço físico e à própria bicicleta. Possivelmente usará outros equipamentos e sua rotina de treino será bem mais severa e cuidadosa, exercitando-se constantemente durante longos períodos diários. Seu desempenho e seu preparo físico, porém, tendem a progredir para algo muito acima da média das pessoas comuns.

Equipamentos, trajes, rotinas, tudo enfim será bem diferente, desde o começo, para cada um deles. E nenhum está mais certo que o outro, apenas os objetivos, e assim, os meios para atingi-los, são diferentes.

Para que serve?

Mantendo essa comparação, o mindfulness pode ser comparado a um treinamento leve, voltado ao desenvolvimento de respostas meditativas rápidas e de baixa amplitude, tendo assim uma aplicação bastante importante para resolução de problemas específicos e que requerem urgência.

Baseia-se em um programa de curta duração, planejado para durar apenas algumas semanas, com atividades diárias de poucos minutos e objetivando resultados rápidos e básicos, como a redução da percepção de dor em pacientes, redução de estresse, ansiedade, depressão, melhora de concentração e outros. Utiliza técnicas simples e de baixa intensidade, com acúmulo de uma carga horária meditativa relativamente pequena. A manutenção da prática, mesmo após as semanas preconizadas pelo treinamento não tende a aprofundar os resultados obtidos, mas apenas mantê-los.

Os treinamentos meditativos tradicionais foram elaborados como métodos de alto desempenho, ou seja, métodos para praticantes que se preparam para realizar milhares de horas de práticas meditativas, tendo em vista resultados bem mais amplos e profundos, atingindo níveis mais elevados de reestruturação mental assim como respostas emocionais e físicas bem diferenciadas em relação às demais pessoas. As desistências são bem maiores, principalmente no início, quando o treinamento é extremamente árduo para quem não tem hábito e motivação suficientes.

Conclusão

Se alguém pergunta qual é a melhor, a resposta é a comparação direta com os ciclistas anteriormente tratados. O importante é que os dois grupos de praticantes saibam que os dois métodos são partes de um mesmo todo, assim como tenham claros os objetivos e limitações dos métodos que estão utilizando. Exemplificando, um dos aspectos que mais contrasta entre os métodos são as posturas para a prática. Na prática do mindfulness, as posturas são as mais simples possíveis, como sentado em uma cadeira ou mesmo uma poltrona com reclinação. Nos treinos tradicionais as posturas são bem mais difíceis, tal como a manutenção da posturas de lótus ou meio lótus. Se uma postura é bem mais simples e a outra é bem mais difícil de se realizar, a primeira não sustenta longos períodos de meditação mas a segunda precisa ser praticada até seu costume adequado para então começar a meditar com certo conforto.

 

Dr.Luiz Rusilo